Antes de se tornar mundialmente conhecido por “Jessie’s Girl”, o músico australiano passou cerca de quatro meses no Vietnã, aos 17 anos, tocando para tropas americanas. Durante um ataque a uma base, acabou participando da defesa do local e recebeu, no dia seguinte, uma notícia que carregaria consigo pelo resto da vida.
Muito antes dos cabelos longos, dos videoclipes e do sucesso de “Jessie’s Girl”, Rick Springfield viveu uma experiência que pouco tem a ver com a imagem de astro pop que construiria nos anos 1980.
Em uma participação recente no podcast The Joe Rogan Experience, o músico australiano contou que acredita ter matado um homem durante a Guerra do Vietnã, quando tinha apenas 17 anos.
Em 1968, Springfield fazia parte da banda australiana MPD Ltd. e passou aproximadamente quatro meses no Vietnã, tocando para soldados americanos. Segundo o músico, grupos que contavam com mulheres entre seus integrantes eram especialmente procurados pelos militares, que queriam ver algo que lhes lembrasse de casa.

A experiência, entretanto, rapidamente deixou de ser apenas uma viagem de um jovem músico para entreter tropas.
“Eu estava jogando morteiros”
Durante uma passagem por uma instalação da Marinha americana próxima às Marble Mountains, na região de Da Nang, a base sofreu um ataque.

Região de Da Nang, no Vietnã, durante a guerra. Foi nessa região que Springfield conta ter participado da defesa de uma base americana.
Springfield contou que estava no galpão de rádio quando o ataque começou. Os músicos foram para os bunkers do perímetro, mas ele acabou permanecendo na área e participou da defesa.
Foi quando recebeu instruções para disparar um morteiro.
Segundo seu relato, ele disparou vários projéteis pelo tubo instalado no galpão.
O próprio Springfield descreveu aquele momento como uma espécie de “hora do John Wayne”, uma referência à maneira como um adolescente poderia imaginar a guerra a partir dos filmes, sem compreender verdadeiramente a dimensão do que estava fazendo.
A realidade veio no dia seguinte.
Springfield conta que recebeu a informação de que um dos morteiros que havia disparado atingira e matara um combatente vietcongue.
Para o músico, a notícia representou algo muito diferente de uma vitória militar.
“É difícil para mim encarar que fui responsável pelo fim de uma vida, mesmo que seja distante, e seja guerra.”
Décadas depois, ele afirma que ainda encontra dificuldade para lidar com aquela lembrança.
Uma experiência que não terminou quando ele voltou para casa
O episódio não foi uma lembrança isolada.
Em entrevistas posteriores à sua passagem pelo Vietnã, Springfield já havia falado sobre o impacto psicológico que a experiência teve sobre ele. Em uma entrevista ao Los Angeles Times, em 1992, o músico classificou sua decisão de viajar para uma zona de guerra ainda adolescente como uma atitude extremamente imprudente.
Ao voltar para casa, sua mãe teria percebido uma mudança no filho. Springfield também relatou que passou a reagir de maneira exagerada a ruídos repentinos, chegando a se assustar com o barulho de escapamentos de automóveis.
A experiência foi posteriormente registrada em suas memórias, Late, Late at Night, publicadas em 2010.
A lembrança do Vietnã, portanto, não apareceu agora pela primeira vez. O que mudou foi a maneira direta como Springfield voltou a falar sobre o episódio e sobre a responsabilidade que acredita ter carregado desde então.
O outro músico que não voltou
A história contada por Springfield também guarda outro capítulo trágico.
Pete Watson, líder da MPD Ltd., banda da qual Springfield fazia parte, morreu aos 25 anos depois de retornar do Vietnã.
Segundo Springfield, Watson desenvolveu uma doença pulmonar e morreu poucos anos depois. O músico afirma não saber se a doença tinha relação direta com alguma exposição sofrida durante o período no Vietnã ou se foi consequência de outra infecção.
A morte de Watson acrescenta outra dimensão à experiência daquela jovem banda australiana que atravessou o mundo para tocar para soldados americanos.
Para alguns dos músicos, a guerra não terminou simplesmente quando deixaram o Vietnã.
Do Vietnã para “Jessie’s Girl”
Anos depois, Rick Springfield construiria uma carreira completamente diferente daquela experiência.
Em 1981, “Jessie’s Girl” transformaria o músico em uma estrela internacional. A música chegou ao primeiro lugar nos Estados Unidos e se tornou sua assinatura, ajudando a definir a imagem de Springfield como um dos grandes nomes do pop rock daquele período.

Mas, por trás do astro que milhões de pessoas conheceriam através do rádio e da televisão, existia também aquele garoto australiano que, aos 17 anos, atravessou uma zona de guerra levando música aos soldados.
Hoje, olhando para aquele período com décadas de distância, Springfield não fala sobre a experiência como uma aventura.
Fala sobre ela como uma lembrança difícil de acomodar.
E talvez seja justamente essa distância entre o adolescente que entrou no Vietnã e o artista que se tornou depois que torna seu relato tão perturbador: algumas experiências acabam quando a pessoa vai embora. Outras continuam acompanhando quem sobreviveu.
Fontes: The Joe Rogan Experience, NBC News, Los Angeles Times, Ultimate Classic Rock e Late, Late at Night, autobiografia de Rick Springfield.


