A Bênção Irlandesa que Jimmy London transformou em “Tempo Ruim”

Toda cultura tem uma canção para quem vai embora. A da Irlanda é quase um mandamento: erguer o copo, desejar boa estrada, aceitar que a partida é definitiva. Jimmy London pegou essa tradição, botou banjo, acordeão e sotaque carioca, e transformou em “Tempo Ruim”, faixa que ele compôs com Donida para o Jimmy & Rats.


Um vocalista que nunca coube em um só personagem

Bruno Munk London, o Jimmy, nasceu no Rio em 1975 e passou mais de duas décadas como voz do Matanza, banda que ele fundou em 1996 e que virou sinônimo de countrycore no Brasil. Fora dos palcos, construiu uma carreira paralela como ator (esteve em “Dois Irmãos”, “Passaporte para a Liberdade”, “Cidades Invisíveis”), apresentador (comandou o “Pimp My Ride Brasil” e cobre o Rock in Rio pelo Multishow desde 2013) e dublador. Quando o Matanza terminou em 2018, ele não parou: fundou o Jimmy & Rats, projeto que mistura folk, irish punk e as histórias de estrada que sempre marcaram suas letras.


A bênção que virou refrão

O centro emocional de “Tempo Ruim” é o refrão, que retoma quase palavra por palavra a chamada Bênção Irlandesa, um texto tradicional usado há séculos em funerais e brindes de partida na Irlanda:

“May the road rise up to meet you. May the wind be always at your back…”

Jimmy transporta esse gesto para o rock: um desejo de que o caminho seja generoso com quem parte, embrulhado em cerveja, vento a favor e um “grande amor” esperando.

O resto da letra segue o mesmo tom de despedida sem melodrama. Há um conselho de pai para filho (não repita os erros dele, não leve armas), uma aceitação de que “nada será fácil” e a constatação seca de que muita gente ali “não vai ver outra vez”. É luto tratado como celebração, o que talvez explique por que tanta gente chama Jimmy de poeta: ele escreve sobre perda sem pedir pena.

Em inglês (a Bênção Irlandesa tradicional):

May the road rise up to meet you.

May the wind be always at your back.

May the sun shine warm upon your face,

The rains fall soft upon your fields,

And until we meet again,

May God hold you in the palm of His hand.

Em português:

Que a estrada se levante ao seu encontro.

Que o vento esteja sempre a seu favor.

Que o sol brilhe suave sobre seu rosto,

Que a chuva caia mansa sobre seus campos,

E até nos encontrarmos de novo,

Que Deus o segure na palma da mão.

Talvez seja justamente essa combinação que torna “Tempo Ruim” uma das composições mais particulares da carreira de Jimmy London. Em vez de transformar a despedida em tragédia, a música faz o que os antigos irlandeses faziam havia séculos: ergue um copo, deseja boa sorte a quem segue viagem e guarda a esperança de um reencontro algum dia.

Sobre Al Martins

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