Imagine Mick Jagger no Brasil.
Agora imagine o vocalista dos Rolling Stones sendo sequestrado, jogado na traseira de um caminhão e levado para uma plantação de bananas.
Parece o começo de uma história inventada. Mas aconteceu. Ou melhor, aconteceu dentro de um dos projetos mais estranhos da carreira de Mick Jagger.
Em 1984, o cantor veio ao Brasil para filmar Running Out of Luck, uma produção dirigida por Julien Temple que misturava cinema, videoclipe, música, comédia e uma boa dose de surrealismo.
E o mais curioso é que Jagger não estava sozinho.
Entre os atores brasileiros que participaram da produção estava ninguém menos que Grande Otelo.
Mick Jagger em uma fase turbulenta
A história começa em um momento bastante particular dos Rolling Stones.
Em 1984, a banda estava atravessando um período de tensão, enquanto Mick Jagger investia cada vez mais em sua carreira solo.
Seu primeiro álbum, She’s the Boss, seria lançado em 1985, e Jagger precisava divulgar aquele novo trabalho.
A solução encontrada foi bastante incomum: em vez de simplesmente produzir videoclipes separados, Jagger e o diretor Julien Temple criaram uma espécie de longa-metragem que incorporava as músicas do álbum.
Temple já conhecia bem o universo do rock. Havia dirigido videoclipes dos próprios Rolling Stones e trabalhado com artistas como os Sex Pistols.
O roteiro foi escrito pelos dois, Jagger e Temple, e o próprio Jagger também aparece como produtor executivo.
E por que o Brasil?
A ideia de ambientar a história no Brasil partiu de Julien Temple.
Jagger chega ao Rio de Janeiro para gravar um videoclipe. Só que a situação rapidamente sai do controle.
Depois de uma série de confusões, o personagem acaba sendo enganado, assaltado e sequestrado.

Ele é colocado na traseira de um caminhão e levado para uma plantação de bananas.
É aí que a história deixa definitivamente de tentar ser um filme convencional.
O próprio enredo mistura aventura, comédia, fantasia, música e situações deliberadamente absurdas.
Grande Otelo encontra Mick Jagger
E é justamente nesse Brasil maluco que aparece um dos maiores nomes do cinema brasileiro.

Grande Otelo participa de Running Out of Luck, ao lado de Jagger.
O elenco brasileiro ainda reunia nomes como Norma Bengell, Tony Tornado, José Dumont, Tonico Pereira, Paulo César Pereio e Carlos Kroeber.
Grande Otelo, que já havia trabalhado com nomes como Orson Welles e Werner Herzog, acabaria dividindo a tela com um dos maiores astros do rock mundial.
E existe uma curiosidade particularmente interessante sobre Norma Bengell.
Segundo relato reproduzido pela imprensa a partir de sua autobiografia, ela acreditava inicialmente que estava sendo contratada para participar de um videoclipe. Só depois percebeu que aquilo estava se transformando em um longa-metragem.
Rio, Paraty e outros cenários
As filmagens aconteceram no Rio de Janeiro e em outras localidades brasileiras.
Entre os lugares utilizados estavam a Fazenda Santa Maria, em Barra do Piraí, e o presídio Vieira Ferreira Neto, em Niterói.
Registros da produção também apontam filmagens no Rio e em Paraty entre o fim de novembro e dezembro de 1984.
E Jagger não ficou restrito ao filme.
Durante aquela passagem pelo Brasil, também foram gravadas cenas utilizadas nos vídeos de músicas de She’s the Boss.
“Lucky in Love“, por exemplo, teve cenas filmadas no salão nobre das Laranjeiras, do Fluminense.
Já “Just Another Night” utilizou imagens gravadas no Rio, incluindo a gafieira Elite.
Um filme ou nove videoclipes?
Talvez essa seja a melhor maneira de entender Running Out of Luck.
Não estamos diante de um filme tradicional.
A produção funciona como uma grande colagem audiovisual construída em torno das músicas do primeiro álbum solo de Jagger.
Entre as canções incorporadas ao projeto estavam “Half a Loaf”, “Running Out of Luck”, “She’s the Boss”, “Hard Woman”, “Turn the Girl Loose”, “Lucky in Love”, “Secrets” e “Just Another Night”, além de uma sequência envolvendo “Jumpin’ Jack Flash” e “Brown Sugar”.

Por isso, Running Out of Luck ocupa um lugar estranho na carreira de Jagger.
É filme.
É videoclipe.
É material promocional.
É comédia.
E, em alguns momentos, parece simplesmente uma desculpa para colocar Mick Jagger em situações cada vez mais absurdas.
E o resultado?
Running Out of Luck acabou ficando muito mais conhecido como uma curiosidade da carreira solo de Jagger do que como um grande filme.
A produção teve lançamento em 1985 e posteriormente circulou em vídeo. Há fontes que apresentam datas diferentes para sua distribuição, justamente porque o projeto teve uma trajetória incomum entre festivais, vídeo e material promocional.
Hoje, entretanto, ele ganhou outro interesse.
Porque visto décadas depois, o filme registra um encontro improvável entre mundos completamente diferentes:
Mick Jagger, Grande Otelo, Dennis Hopper, Jerry Hall e uma série de atores brasileiros, todos reunidos em uma história que começa no Rio de Janeiro e termina em uma plantação de bananas.
E talvez essa seja a melhor definição para Running Out of Luck:
um dos encontros mais improváveis entre o rock internacional e o cinema brasileiro dos anos 80.
E pensar que, em meio a tudo isso, ainda tem Mick Jagger cantando músicas de seu primeiro disco solo.
No fim das contas, o título não poderia ser mais apropriado.
Running Out of Luck.
Mick Jagger realmente estava ficando sem sorte.
Mas deixou para trás uma das histórias mais estranhas da relação entre o rock e o Brasil.
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