Um microfone que ficou na posição errada, um wah parcialmente aberto e uma Les Paul Junior acabaram criando um dos timbres mais famosos da história do rock
Poucos segundos de guitarra são suficientes para reconhecer “Money for Nothing”. O riff de Mark Knopfler entra em cena com um timbre áspero, nasal e cortante, completamente diferente do som limpo que havia ajudado a transformar o guitarrista do Dire Straits em uma das grandes referências da década.
E o mais curioso é que ninguém planejou aquele som exatamente daquela maneira.
Durante as gravações de Brothers in Arms, em 1985, no AIR Studios, em Montserrat, Mark Knopfler e o produtor e engenheiro Neil Dorfsman estavam tentando chegar a uma sonoridade inspirada no ZZ Top e em Billy Gibbons. Knopfler utilizava uma Les Paul Junior ligada a um amplificador Laney, enquanto um pedal wah Morley permanecia parcialmente aberto para alterar a resposta de frequência da guitarra.
A equipe havia preparado os microfones para continuar o trabalho no dia seguinte. Quando a sessão foi retomada, porém, Dorfsman percebeu que a configuração não estava como deveria.
Um dos microfones apontava diretamente para o chão, outro não estava exatamente sobre o alto-falante e havia ainda outro em uma posição diferente. Segundo Dorfsman, aquela configuração provavelmente havia ficado assim desde a noite anterior, quando ele ainda não havia terminado de preparar a gravação.
Antes que ele pudesse corrigir tudo, Knopfler começou a tocar.
A guitarra soou nos monitores e a reação foi imediata. O técnico de guitarra Ron Eve, que estava na sala de controle, pediu que Dorfsman não mexesse em nada porque o som estava excepcional.
Aquela configuração acidental dos microfones criou uma combinação incomum de frequências e relações de fase que ajudou a produzir o timbre característico de “Money for Nothing”. O resultado era tão diferente do que haviam planejado que o acidente acabou se transformando na sonoridade definitiva da guitarra principal da música.
E há uma ironia ainda maior: o som não foi recriado artificialmente depois.
Dorfsman registrou cuidadosamente as configurações utilizadas em Montserrat. Algumas semanas mais tarde, quando a produção precisou reproduzir o timbre durante sessões no Power Station, em Nova York, ele tentou repetir tudo. Mesmo com suas anotações e medidas, não conseguiu chegar ao mesmo resultado.
O acidente havia produzido algo que não podia ser reproduzido com precisão.
A influência de Billy Gibbons
A história fica ainda mais interessante porque o ponto de partida não era criar um som completamente novo. Knopfler estava procurando justamente algo próximo do timbre de Billy Gibbons, do ZZ Top, cuja guitarra havia se tornado uma referência durante a explosão dos videoclipes na MTV.
Gibbons posteriormente contou que Knopfler chegou a pedir sua ajuda para reproduzir aquele tipo de sonoridade. O guitarrista do ZZ Top, porém, não entregou nenhum segredo. Mesmo assim, reconheceu que Knopfler havia conseguido um resultado bastante convincente.
O que começou como uma tentativa de chegar ao som de outro guitarrista acabou criando algo que passou a ser imediatamente associado a Mark Knopfler.
O acidente virou história
Outro detalhe impressionante é que o efeito não dependia apenas de equipamentos. O timbre era resultado da combinação entre a Les Paul Junior, o Laney, o wah parcialmente aberto, a posição incomum dos microfones e a maneira particular de Knopfler tocar guitarra com os dedos.
A história ficou conhecida entre engenheiros de som como um “happy accident” clássico: um daqueles acidentes felizes que acontecem em estúdio e que, justamente por serem difíceis de reproduzir, acabam se tornando parte da identidade de uma gravação.
“Money for Nothing” foi lançada em 1985 como um dos grandes sucessos de Brothers in Arms. A música chegou ao topo da parada americana e seu riff se transformou em um dos sons de guitarra mais reconhecíveis dos anos 1980.
O curioso é que, décadas depois, guitarristas continuam tentando reproduzir aquele timbre. Mas a gravação original nasceu de algo que nenhum deles consegue simplesmente copiar: uma configuração de estúdio que deveria ter sido corrigida, mas que acabou ficando exatamente como estava.
Fontes: Sound On Sound, Guitar World, Guitar Player e entrevista de Neil Dorfsman.
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